Quinta-feira, Setembro 25, 2008

Relembrando

Adorava ver como meu filho Edgar se aventurava correndo nos campos floridos atrás de uma bola. Ele era lindo, olhos grandes e negros, cabelos lisos e um sorriso encantador. Todos gostavam dele, mas entre os amiguinhos que ele brincava havia um que era gordinho e cabisbaixo, seu nome era Eduardo. Aquele menino passivo me incomodava, sempre que Edgar chegava do treino conversávamos e eu procurava saber algo sobre o garoto. Segundo meu filho ele sempre se portava assim e quando os colegas tentavam uma aproximação ele se esgueirava entre as chuteiras e meias e sumia. Todos logo comentavam, mas depois acabava a aula e cada um ia pra sua casa contente esperando ansiosamente por mais um treino.
Na semana do aniversário de Edgar resolvi dar uma festinha em casa, preparei todos os convites e fui entregar pessoalmente nas casas dos meninos.
A manhã estava quente e com uma lista de 20 nomes começamos o dia. Amanda, Bernardo, Caio, Daniela... Todos estavam em casa com seus pais e fomos recebidos muito bem pelas famílias.
A letra E era a próxima e Chegamos á rua da casa de Eduardo. Era uma rua muito bonita, cheia de crianças brincando nos parques, pensei que iria encontrar o garoto por ali mesmo, mas me enganei.
Paramos em frente á uma casa velha, pintada de um verde-musgo que assustava qualquer um. Tinha dois andares e não tinha nenhuma árvore por perto. Apertamos a velha campainha e depois de alguns minutos um vulto se aproximou. Era o garoto. Ele estava com um óculos imenso escondido dentro da calça e quando nos viu tomou um susto.
- Oi Eduardo, com estás? Vim aqui te convidar para a minha festa de aniversário!
Edgar sempre foi muito comunicativo e fez seu papel de amigo muito bem.
O garotinho não respondia nada e ficou demasiadamente vermelho.
- Você veio me convidar?
- Sim!Se tiver algum rolo minha fala com a sua e fica tudo bem.
- Ah... Minha mãe está lá em cima no quarto dela, entrem que eu vou chamá-la.
O garoto parecia não acreditar que alguém finalmente tivesse vindo á sua casa.
Quando entramos na casa vi que a luz do sol não entrava e isso a deixava sombria e medonha. As paredes eram cheias de retratos antigos e animais empalhados, não havia visto nenhum livro até então.
O menino cabisbaixo que eu conhecia hoje estava feliz. Pegou Edgar pelos braços e foi correndo para o quarto mostrar-lhe o que era a sua diversão. Subimos uma escada estilo caracol e nos deparamos com um corredor longo com muitas portas. A última e única que não tinha tranca era a do seu quarto.
Uma cama, uma estante e um guarda-roupa, era esse o quarto de Eduardo. Não havia brinquedos, nem revistas, nem livros, nenhum desenho, nada. Apenas o básico.
- Minha mãe não gosta que eu traga ninguém aqui, mas nesse caso vocês que vieram.
Risadas altas entre os dois. Eu observava de longe.
- Trouxe vocês aqui porque gostaria que vissem meu tesouro!
Disse o garoto com os olhos brilhando.
- Tesouro?
Edgar estava entusiasmado! E eu, intrigada.
De baixo da cama Eduardo tirava do chão algumas madeiras e dentro desse compartimento secreto guardava sua raridade. Livros de todos os tamanhos e cores, alguns muito antigos outros novos, todos guardados organizadamente em saquinhos para o pó não entrar.
Fiquei admirada de tanto capricho e não pude conter minha surpresa:
- Dudu, que coisa legal! Quantos livros você tem aqui?
- A tia, muitos.
- Mas porque você os esconde? Pode colocá-los em cima da estante ali. Vão enfeitar seu quarto!
Um silêncio súbito acometeu o quarto e o garoto engasgado disse em tom baixo:
- Não posso gostar de ler!Minha mãe não gosta, ela diz que isso é coisa dos...
Nesse instante o garoto interrompeu sua fala e seus olhinhos que antes brilhavam agora se esbugalhavam como se estivesse vendo um mostro.
- Boa tarde!
Uma voz serena vinha da porta e eu prontamente respondi á delicadeza. Virei e dei de cara com uma mulher grande e com os cabelos todos desarrumados. Seria a mãe dele?
A porta se abriu lentamente e uma surpresa se fez diante dos meus olhos, a mãe de Eduardo fora uma colega de escola que muito mal me fazia. Era uma garota gorda e invejosa, se vangloriava por ter um pai dono de livraria e sempre me deixava constrangida na frente das colegas. Era mimada e como sabia que o meu gosto pela leitura era grande me fazia promessas de livros, mas nunca cumpria. Deixava-me dias esperado pela delícia de ter um livro nas mãos e nunca me dava essa chance.
Desde muito pequena eu almejava pela leitura e acho que isso me fez tornar o que sou hoje, uma jornalista. Adoro ler e sempre quis que Edgar tomasse gosto por essa arte, mas ele se mostrava apaixonado pela arte do futebol.
Da forma mais educada iniciei um diálogo:
- Olá! Você de vê ser a mãe de Eduardo. Eu sou a mãe de Edgar. Já nos conhecemos não é?
A cor do seu rosto mudou totalmente. Parecia lembrar de tudo o que aconteceu entre nós no passado e suas bochechas gordas ficaram da cor do batom bordô da sua boca.
Aquela garota que me negava os livros era a mesma que agora estava impedindo seu filho de ler. Era estranha aquela situação.
Restritamente por educação nos convidou para tomar um chá gelado na cozinha. Eu e Iaponã descemos primeiro e na saída do quarto olhei para trás e vi a mulher grande olhando o filho e perguntando sobre aquele baú secreto. Apressei meu passo e sentei na mesinha da copa.
Esperamos um pouco e logo ela desceu, o garoto vinha atrás dela de cabeça baixa e com olhos inchados como se tivesse chorado. Ela preparou um chá e sentou do outro lado da mesa, mas olhava pra nós e eu tive a infeliz idéia de fazer a afirmação:
- Eduardo tem livros bons no quarto dele, você deve se orgulhar disso.
Neste momento ela levantou a cabeça e como se estivesse em um campo de batalha se defendeu rapidamente:
- Não sabia desses livros!Não gosto que Eduardo tenha contato com esse mundo cheio de mentiras! Livros apenas os técnicos que são obrigatórios. Outros, eu não permito.
Edgar arregalava os olhos e achava tudo muito estranho. O garotinho se escondia atrás da cortina, parecia ter vergonha e medo. Como alguém podia pensar assim? Literatura era bom pra qualquer um, ainda mais para um menino da idade de Eduardo. Restava-me saber o porquê disso, ou não, estava ali apenas para convidar o garoto. Já estava me envolvendo demais.
- Bom, viemos convidar o Dudu para uma festinha lá em casa. Espero que esteja tudo em bem em ele ir...
Parecia que a minha afeição pelo menino incomodava. Ela me olhava como se estivesse enojada com a minha presença,confesso que eu também estava, mas as crianças não tinham culpa de nada. Pensava comigo mesma, o que teria acontecido na vida dela para deixá-la tão distante da literatura e ter tornado isso um fardo.
Lembro-me muito bem que eu passava horas esperando ela chegar com o livro que prometera, mas nunca ia, sempre arrumava uma desculpa para me deixar mal. Hoje eu tenho os livros, uma casa e um filho e ela? Queria saber, mas achava que não tinha que perguntar e engoli seco.
Já não agüentando aquele ar abafado da casa, levantei-me.
- Posso contar com ele?
Ela olhou séria e pensou.
- Acho que sim, temos que conversar antes, mas ele vai. Pode esperar.
Sem nenhum sorriso ou manifestação próxima ela abriu a porta da rua. A brisa entrou na casa pela primeira vez. Eduardo abraçou Edgar e a mim. Nesse momento disse ao pé do ouvido dele:
- Darei á você os livros que quiser!
Senti meu coração mais feliz naquele instante. Pensei em como eu ficaria feliz se ouvisse isso de alguém quando era mais nova.
Saímos dali e meu filho estava mais ansioso ainda pela festa.
Os dias se passaram rapidamente e à tarde de oito de setembro chegou bonita e quente. Preparei a mesa e os balões. Edgar estava na porta esperando seus convidados, vestia sua roupa predileta, uma calça jeans preta, camiseta amarela e um boné da mesma cor. Era muito bom ser mãe.
Eduardo chegou atrasado e suado. O menino correu quatro quadras para chegar. Cantamos parabéns e eu abracei meu filho em um momento inesquecível.
A festa se encerrava e eu estava dando os brindes para as crianças. Pensei sobre a situação de Eduardo, mas não queria me envolver nela. Peguei alguns livrinhos que eu tinha guardado no armário e os coloquei em uma pasta transparente e esperei.
Havia uma fila enorme para receber os doces e Edgar, faceiro, era o primeiro. Amanda, Bernardo, Caio, Daniela... e Eduardo. Peguei a pata e com todo o carinho disse á ele:
- Sei que sua mãe não gosta de livros, mas sei que você dará um jeito de ler e guardar estes. Se quiser mais alguns diga a Edgar que ele lhe dará com certeza. Minha criança nunca deixe de sonhar e acredite que os livros são o melhor caminho para ter os sonhos perto de nós.
Acho que ele não sabia o que dizer. Pegou os doces e abraçou-me como se tivesse sido salvo de algo que o amedrontava. Agarrou os livros e apertou contra seu peito. Saiu correndo e sumiu entre as casas.
Passei o dia com Edgar e com Eduardo na cabeça. Pensando como seria bom vê-lo bem, mas isso já era demais pra minha vida de jornalista e mãe. Preferi me abster da situação.

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